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30/11/2019
Pai de menino que teve braço arrancado por tigre no zoológico de Cascavel é condenado

Em agosto de 2014 o menino Vrajamani Rocha, na época com 11 anos, teve o braço arrancado pela mordida de um tigre, durante visita ao zoológico de Cascavel. A justiça entendeu, em sentença dada ontem, que o pai que acompanhava o filho na visita teve culpa no acidente.

Marcos do Carmo Rocha foi condenado a 3 anos de reclusão. Pelo tamanho da pena e pelo homem ser réu primário o cumprimento será no regime aberto ou com prestação de serviço comunitário.

Vrajamani mora em São Paulo e estava passando férias na casa do pai em Cascavel. O caso teve repercussão nacional. Durante o socorro o menino estava consciente e pedia para não matarem o tigre, pois ele próprio era o culpado. Ele foi levado às pressas ao Hospital Universitário, mas o membro foi amputado.

A defesa pediu a anulação do processo dizendo que não havia sido intimada em órgão oficial. O pedido foi negado com a alegação que a defesa acompanhava o processo e respondeu a acusação.

Testemunhas
Várias testemunhas foram ouvidas no processo e disseram que viram o menino antes do acidente em uma área restrita. O garoto pulou a cerca de proteção mais de uma vez e chegou a levar comida para dar aos animais.

Populares viram a situação e alertaram o pai, mas mesmo assim o acidente ocorreu. O relato é que o homem incentivava o filho a se aproximar dos animais. Um guarda também teria pedido para o menino deixar a área, mas ele posteriormente retornou.

O acusado disse que estava com o outro filho de colo e declarou que jamais faria mal ao filho. Ele disse que o animal parecia dócil e brincava. A justiça apurou que antes do ataque mais grave o tigre já havia tentado morder o menino.

“Os relatos são clarividentes em expor que o acusado foi omisso com seu próprio filho, uma criança de 11 anos de idade, que ultrapassou a barreira de proteção para brincar com animais selvagens do zoológico. O acusado ignorou as placas de proteção e o que vários transeuntes lhe diziam ao passarem pelo local, alertando-o sobre o perigo de seu filho estar tão próximo de animais tão perigosos.

Veja-se que até mesmo pessoas estranhas, que passeavam pelo local, alertaram o acusado sobre a gravidade da situação, tendo ele ignorado o que ouvia”.
A juíza destacou que a conduta do réu não condizem com o que se espera de um pai.

“O fato de o réu estar sozinho com seus dois filhos (a vítima e outra criança pequena no colo), em nada minimiza a sua responsabilidade, como tentou fazer em seu interrogatório, alegando que não conseguia ‘administrar tudo’ e que a vítima era um ‘moleque espoleta’.

Ora, se era muito trabalhoso estar com duas crianças em um zoológico, deveria ter pedido auxílio de mais alguém para acompanha-lo, ter escolhido outro lugar para passear com seus filhos (onde houvesse menor exposição a riscos) ou, no mínimo, ter alertado e proibido a vítima de ter acesso às grades das jaulas dos animais”
Um vídeo feito antes do ataque inclusive provou que o homem incentivava o filho a brincar com o animal.

“Aliás, o próprio acusado disse em seu interrogatório que o tigre, parecia um gatinho brincando, um animal sendo acariciado e que gosta de carinho cenas, estando ciente da situação de risco a que permitiu seu filho ficar exposto, assumindo o risco da produção do resultado danoso, não cabendo se falar na aplicação do instituto do perdão judicial”.
Cabe recurso da decisão. A pena de três anos de reclusão pode ser cumprida em regime aberto com o réu se apresentando mensalmente e recolhendo-se em casa das 22 às 6 horas. Ele também fica proibido de ingerir bebida alcoólica e ou frequentar bares.

Foi autorizada ainda converter a pena em prestação de serviço comunitário, sendo uma hora por dia de condenação além de limitação de fim de semana.

Veja a transcrição dos depoimentos da vítima e do pai:

 

 

O que disse a vítima?
A VÍTIMA VRAJAMANY afirmou em juízo que estavam no zoológico, quando entrou na “jaula” porque seu pai tiraria uma foto. Afirmou que mexeu com o tigre, ele mordeu seu dedo e puxou seu braço. Mencionou que o acesso ao tigre foi fácil, pois a grade era baixa. Havia um círculo com um leão, tigre, leoa, e uma grade alta que os separava e cerca de um metro e meio de grama. Narrou que se aproximou do tigre por decisão própria e que estava acompanhado de seu pai e seu irmão mais novo. Enfatizou que o pai o viu pulando essa cerquinha, mas não falou que era perigoso. Contou que chegou mais de uma vez perto do tigre e o genitor não pediu para ele se afastar dali. Esclareceu que seu pai não o incentivou para entrar naquele local e dar comida ao animal, mas apenas pediu que entrasse ali para tirar uma foto mais de perto. Pontuou que o genitor sabia que o depoente daria comida ao tigre e que, mesmo quando ofereceu o alimento ao animal pela primeira vez, o genitor não falou nada. Asseverou que não estava dando comida quando o tigre o mordeu. Ressaltou que quando foi mordido estava distraído, olhando para uma árvore. Quando foi mordido, o tigre puxou seu braço para dentro da jaula e ficou “grudado” na grade por um tempo, ao que seu pai pulou a cerca de proteção, colocou o dedo no olho do tigre e ficou “socando” sua cara, mas o animal não se importou. O tigre apenas soltou seu braço quando quis. Em seguida, seu pai tirou a camisa e colocou no seu braço. Relatou que seu pai e sua mãe ficaram muito abalados com a situação. Afirmou que a situação com seu pai atualmente é normal. No local do ocorrido não viu outras pessoas tirando foto naquela área que entrou, mas viu no  uma pessoa que mexia com o mesmo tigre. Ressaltou que se aproximou do tigre youtube porque quis e que seu pai falou para tirar uma foto, mas pulou sozinho a grade, sem a ajuda de ninguém. Disse que seu pai estava para trás, tirando a foto. Mencionou que leu as placas de aviso e que seu pai sabia que daria comida para o tigre porque o viu na hora, mas que isso não estava combinado. Quando do socorro por seu pai, relatou que ele teve acesso ao tigre pela própria grade, pois o animal estava perto. Contou que um segurança falou para a vítima sair daquele local [ ], e por área restrita, para dentro da grade de proteção isso saiu, mas em seguida voltou. Seu pai não ficou o tempo todo por perto, pois em determinado momento ele foi até o carro, mas que no momento do ocorrido o pai estava perto de si.

O que disse o acusado?
Ao ser interrogado, o acusado MARCOS narrou que estava com seus 2 filhos durante as férias (um deles mora em São Paulo e o outro em Cascavel) e queria ficar com eles, já que é muito ocupado. Assim, foram para o zoológico, estava cuidando dos dois ao mesmo tempo e ocorreu uma fatalidade. Afirmou que a vítima era “moleque espoleta” e havia pulado a cerca de proteção com facilidade, porque é baixa. Mencionou que não se recorda de ter lido avisos para não pular e que um vigia apareceu em determinado momento e lhe falou algo “ao léu” e virou as costas. Disse que não falou em momento algum para seu filho entrar e ficar próximo ou alimentar o tigre, nem para que entrasse para tirar foto. Asseverou que estava com seu outro filho no colo, por isso não conseguia administrar tudo o que estava acontecendo. Várias pessoas falaram para tirar o menino daquele local e outros achavam “bonitinho”. Os que alertaram, disseram que era perigoso. Contou que cuidou de seu filho até os dois anos de idade, ensinou ele a falar e que, depois dessa fatalidade, é muito difícil lembrar do assunto. Declarou que tudo o que fez foi para tentar ficar com seus filhos. Admitiu que foi uma falha, um erro, mas que não sabia como administrar. Complementou que sofreu muito e que jamais faria mal ao filho. Contou que a vítima pulava a grade, brincava, depois voltava. Disse que pediu para a criança sair dali “numa boa”, “meio sem voz ativa”. Mencionou que, antes do ataque, o tigre não tentou atacar outras vezes, inclusive perceberam que o animal era dócil e brincava. Sobre o vigia ter falado “ao léu”, esclareceu que ele apenas falou e saiu e que seu filho saiu do local na hora, mas depois voltou, pois o vigia não ficou lá para ver. Afirmou que em momento algum incentivou seu filho a se aproximar da grade para dar comida ao tigre, apenas viu que ele estava brincando. Não passou por sua cabeça que haveria um ataque, pois parecia um gatinho brincando, um animal sendo acariciado e que gosta de carinho.

 

Créditos: CGN - Mariana Lioto - Foto:Reprodução

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